O impacto da série Euphoria

|Juciara Ribeiro
O impacto da série Euphoria

Séries · Cultura · Geração Z

Euphoria: Como uma Série de TV se Tornou um Fenómeno Cultural Global


Como é que uma série sobre adolescentes conseguiu influenciar a forma como milhões de jovens se maquilham, se vestem e discutem ansiedade e dependência? A resposta é mais complexa do que parece.

Euphoria estreou na HBO em junho de 2019 com uma proposta que parecia arriscada: uma série sobre adolescentes americanos, baseada numa produção israelita homónima, que não iria tratar a adolescência como uma fase de crescimento com lições aprendidas. Ia tratá-la como um estado de emergência permanente, caótico, belo e devastador ao mesmo tempo.

O sucesso que se seguiu ultrapassou qualquer expectativa de audiências. A segunda temporada, em 2022, tornou-se a série mais vista da HBO desde os Sopranos. Mas o impacto cultural de Euphoria mediu-se noutros sítios: nos tutoriais de maquilhagem com pedras e glitter que inundaram o TikTok, nas conversas sobre dependência que a série forçou para fora do silêncio, nas passarelas que adoptaram a sua estética neon como referência, e nas discussões sobre saúde mental que continua a provocar.

O que se analisa aqui não é o mérito televisivo da série, esse já foi amplamente reconhecido pela crítica e pelos Emmy. É o fenómeno mais difícil de explicar: porque é que esta série específica tocou algo tão fundo em tanta gente, e o que é que isso nos diz sobre a geração que a abraçou.

Euphoria em números
Estreia HBO Junho 2019
Espectadores T2 (estreia) 19,5 M
Emmy de Melhor Actriz — Zendaya 2020 e 2022
Pesquisas TikTok #euphoriamakeup +4 mil milhões
Países onde estreou em top 10 Netflix 50+

O que tornou Euphoria diferente de outras séries adolescentes?

Para perceber porque Euphoria fez sucesso da forma que fez, ajuda compará-la com o que veio antes. As séries adolescentes dos últimos vinte anos partilhavam uma gramática narrativa reconhecível, conflitos de identidade resolvidos ao longo de temporadas, romances com obstáculos superáveis, dramas que tinham início, meio e fim.

2007 — UK
Skins
Abordou sexo, drogas e saúde mental com franqueza inédita para a época. Mas manteve uma estrutura episódica centrada em personagens individuais com arcos relativamente fechados.
2007 — EUA
Gossip Girl
Glamorizou abertamente a adolescência rica de Nova Iorque sem grande ambiguidade moral. O drama existia para entretenimento, não para reflexão sobre condição humana.
2017 — EUA
13 Reasons Why
Tentou abordar temas sérios mas foi amplamente criticada por profissionais de saúde mental pela forma como representou o suicídio, potencialmente copiável e com resolução narrativa que servia a trama mais do que a verdade.

A abordagem visual como linguagem própria

O diretor de fotografia Marcell Rév e o criador Sam Levinson construíram uma gramática visual que não tinha precedente em séries adolescentes. A iluminação neon, roxos, azuis e rosa que criam uma atmosfera entre o sonho e a alucinação, não é decorativa. É narrativa. Quando Rue está em recaída, a paleta de cores muda. Quando Jules encontra paz, a luz muda. A câmara funciona como extensão do estado emocional das personagens de uma forma que a maioria das séries reserva para o cinema de autor.

Os planos longos, sequências de vários minutos sem corte, centradas num rosto ou num gesto, exigem do espectador uma atenção que a televisão de consumo rápido raramente pede. É uma escolha deliberada: a série recusa o ritmo acelerado que o TikTok normalizou e força uma espécie de contemplação incómoda.

Personagens que não são boas nem más

Rue é uma narradora não fiável que mente aos espectadores. Nate é simultaneamente vítima de violência doméstica e perpetuador de violência. Maddy é cúmplice de uma relação tóxica e ao mesmo tempo a sua maior vítima. Jules foge ao sofrimento de formas que prejudicam as pessoas que ama. Nenhuma destas personagens tem uma leitura simples, e a série não fornece atalhos para quem quer uma.

Essa complexidade moral é o que separa Euphoria das suas antecessoras. Não há um arco de redenção garantido. Não há uma lição aprendida por episódio. As personagens tomam decisões destrutivas repetidamente e sem garantia de que a próxima vai ser diferente, o que é, para quem já viveu ou conhece alguém com dependência ou trauma, o retrato mais honesto que a televisão mainstream alguma vez produziu sobre esses temas.

Narrativa emocional em vez de estrutural

A série não funciona por plot. Funciona por estado emocional. Os episódios são organizados em torno de uma sensação, pânico, euforia, vergonha, ternura, e constroem-se a partir daí. Isso desorientou uma parte do público que esperava uma progressão narrativa convencional. E capturou completamente outra parte, a que reconheceu que a vida emocional da adolescência raramente tem estrutura de três atos.

A maquilhagem de Euphoria, criada pela artista Doniella Davy, tornou-se uma linguagem estética própria, adotada globalmente como forma de expressão emocional.


Como Euphoria redefiniu a estética da Geração Z

A maquilhagem como linguagem emocional

A maquilhagem de Euphoria não é maquilhagem decorativa. É maquilhagem que diz coisas que as personagens não conseguem dizer em voz alta. Doniella Davy, a artista de maquilhagem responsável pelo look da série, construiu uma filosofia visual em que cada escolha tem função narrativa: as pedras sob os olhos de Jules sinalizam uma fragilidade adornada, a tentativa de tornar a vulnerabilidade bela. O glitter excessivo de Maddy é armadura. Os lábios pintados de forma descuidada de Cassie são autossabotagem visível.

Isso é o que tornou a estética contagiante de uma forma que uma tendência de maquilhagem normal não consegue replicar. As pessoas não copiaram apenas o look, copiaram a ideia de que a maquilhagem pode ser um estado de espírito, uma declaração emocional, uma forma de dizer "estou aqui, neste estado específico, e não me vou desculpar por isso". Para uma geração crescida a ouvir que as emoções são fraqueza, foi uma proposta com peso real.

O impacto no TikTok e Instagram

A hashtag #euphoriamakeup acumulou mais de quatro mil milhões de visualizações no TikTok, um número que coloca a série numa categoria muito específica de fenómenos culturais: os que geram participação ativa, não apenas consumo passivo. As pessoas não observaram a estética de Euphoria. Replicaram-na, reinterpretaram-na, usaram-na para se posicionarem culturalmente.

O que o TikTok fez foi descentralizar a estética. Tirou-a da série e colocou-a nas mãos de qualquer pessoa com telemóvel e eyeliner. Isso multiplicou o alcance mas também transformou algo com significado narrativo específico numa tendência de superfície, e a tensão entre as duas leituras (estética como linguagem versus estética como moda) é ela própria um reflexo de como a Geração Z consome cultura.

A influência nas passarelas e nas marcas

A influência de Euphoria na indústria da moda foi direta e documentada. A Valentino adotou a paleta neon em coleções seguintes. A MAC Cosmetics lançou colaborações inspiradas diretamente na série. Marcas de fast fashion usaram a linguagem visual, as cores, as pedras, o glitter estruturado, em campanhas dirigidas ao público jovem.

O que é culturalmente interessante aqui é a direção da influência. Normalmente é a alta moda que filtra para a cultura popular. Com Euphoria aconteceu o oposto: uma série de televisão criou uma estética que as passarelas adotaram como referência. É um dos poucos exemplos recentes em que a televisão liderou a conversa visual em vez de a seguir.

"A maquilhagem de Euphoria não é sobre parecer bonita. É sobre parecer exatamente como te sentes, mesmo que isso seja assustador, mesmo que não seja aprovável."


Saúde mental e dependência: representação ou romantização?

A jornada de Rue

Rue Bennett é uma narradora em recuperação que não está em recuperação. A sua dependência de opiáceos não é apresentada como um desvio de um caminho normal, é o caminho. A série segue as recaídas com uma honestidade que é por vezes fisicamente difícil de ver: não há fundo que seja definitivo, não há momento de viragem que garanta a próxima cena vai ser melhor.

O episódio "Stand Still Like the Hummingbird", na segunda temporada, em que Rue em abstinência forçada enfrenta a família e foge pela cidade, é amplamente considerado um dos episódios de televisão mais precisos alguma vez produzidos sobre o que é estar em recaída ativa. Profissionais de saúde mental citaram-no como recurso educativo. Pessoas em recuperação reconheceram-no como retrato exato de estados que tinham dificuldade em descrever a quem não viveu o mesmo.

Porque tantos jovens se identificaram

A dependência de Rue é o elemento mais extremo da série, mas não é o único motivo pelo qual a Geração Z se reconheceu nela. O que a série captou foi algo mais difuso e mais universal: a sensação de que existir é demasiado intenso, de que as emoções chegam em volumes que o mundo não está preparado para receber, de que a única saída possível é a anestesia, química, relacional, digital.

Num contexto em que a ansiedade e a depressão entre adolescentes atingiram níveis históricos, documentados antes da pandemia, agravados durante ela, Euphoria foi uma das primeiras produções mainstream a tratar esses estados não como patologias a resolver mas como realidades a habitar. Não com aprovação. Mas com reconhecimento.

Os dois lados da controvérsia

O argumento a favor
  • Mostra consequências reais da dependência, perda de relações, colapso familiar, recaídas sem redenção garantida
  • Profissionais de saúde mental usaram episódios específicos como recursos pedagógicos
  • Criou espaço de discussão pública sobre temas que eram tabu em contexto adolescente
  • A representação sem julgamento permite que quem vive estas realidades se sinta visto sem vergonha
O argumento crítico
  • A estética cinematográfica do sofrimento, bela demais, pode fazer a dependência parecer desejável
  • Rue é uma personagem cativante e carismática mesmo nos seus momentos mais destrutivos
  • A série foi criada por Sam Levinson, que tem historial próprio de dependência, o que pode criar enviesamento na representação
  • Grupos de pais e algumas organizações de saúde pediram à HBO que acrescentasse avisos mais explícitos

A verdade é que nenhum dos lados está completamente errado, e a tensão entre eles é em si mesma significativa. Uma série que pode ser simultaneamente recurso educativo para profissionais de saúde e potencial fator de risco para adolescentes vulneráveis é uma série que existe numa zona cinzenta onde a maioria das produções não tem coragem de entrar. Isso é tanto o seu maior mérito quanto a sua responsabilidade mais pesada.


Zendaya ganhou o Emmy de Melhor Actriz em 2020 e 2022, tornando-se a mais jovem a ganhar duas vezes nesta categoria.


Euphoria e a representação da Geração Z

Dizer que Euphoria retrata a Geração Z é simultaneamente verdade e simplificação. Retrata uma versão específica, americana, de classe média, suburban, mas toca em dinâmicas que transcendem essa geografia.

A cultura da exposição permanente

As personagens de Euphoria vivem num estado de observação constante, pelas redes sociais, pelos pares, pelos próprios. Cassie constrói a sua identidade inteiramente a partir do olhar dos outros. Maddy existe em performance permanente. Rue é a única que se subtrai a essa lógica, e o preço que paga é o isolamento.

Esta dinâmica não é invenção da série. É o que o sociólogo David Riesman descreveu como personalidade "other-directed", identidade construída em função da aprovação externa, mas amplificada por uma infra-estrutura tecnológica que Riesman não podia imaginar. A Geração Z cresceu com o likes como feedback constante da sua existência. Euphoria mostrou o que isso faz às pessoas sem anestésico.

A procura por identidade

Jules e a sua exploração de género e sexualidade não são um subplot de Euphoria, são um dos eixos centrais da série. E a forma como são tratados é notável pela ausência de didatismo. A série não explica Jules ao espectador. Acompanha-a no processo, com toda a contradição e confusão que isso implica.

Para uma geração que cresceu com um leque de identidades disponíveis que as anteriores não tinham, e com a pressão simultânea de escolher, declarar e defender publicamente essas identidades nas redes sociais, esta representação teve um peso específico. Não porque fornecesse respostas. Porque mostrava que não ter respostas era uma posição válida.

O medo do fracasso

Uma das dinâmicas menos comentadas de Euphoria é a pressão académica e social que atravessa as personagens. Nate é filho de um pai que projetou nele uma versão de masculinidade que nunca pediu. Cassie é filha de uma mãe cujas expectativas não consegue cumprir. Lexi passa a série a observar em vez de participar, por medo de que a participação implique falhar.

A investigação sobre saúde mental adolescente documenta um aumento significativo de ansiedade de desempenho nas últimas duas décadas, correlacionado com o aumento da competitividade académica e com a exposição permanente às conquistas dos pares nas redes sociais. Euphoria não cita estudos. Mas encarna essa realidade com uma precisão que os estudos raramente conseguem.


Contexto: Segundo o Centers for Disease Control and Prevention, em 2021, 42% dos estudantes do ensino secundário nos EUA reportavam sentimentos persistentes de tristeza ou desesperança, o valor mais alto registado desde que a questão foi incluída nos inquéritos. Euphoria estreou em 2019, no início desta trajetória documentada.

O papel de Zendaya no fenómeno Euphoria

De Disney para drama de autor

Zendaya começou na Disney Channel, Shake It Up, K.C. Undercover, numa trajetória que raramente produz atores de reconhecimento crítico sério. A transição para Euphoria foi um risco calculado que poucos apostavam que ia correr bem. Correu.

O que Zendaya fez com Rue não foi apenas interpretar uma personagem difícil. Foi desaparecer nela de uma forma que torna difícil separar a atriz da criação. A ausência de vaidade na performance, o nariz a escorrer, os olhos inchados, o corpo a colapsar, foi uma escolha deliberada que custou muito em termos de exposição física e emocional, e que foi reconhecida precisamente por isso.

Dois Emmy. Com 24 e 26 anos.

Em 2020, Zendaya tornou-se a mais jovem actriz a ganhar o Emmy de Melhor Actriz em Drama Series, com 24 anos. Em 2022, repetiu. Nenhuma actriz tinha ganho duas vezes antes dos 30. Para além do simbolismo geracional, os prémios tiveram um efeito concreto na perceção da série: validaram-na como produção de prestígio numa categoria onde a televisão de cabo premium compete com os melhores do cinema.

Porque Rue é uma personagem que fica

Rue é difícil de gostar e impossível de largar. Mente. Manipula. Prejudica as pessoas que ama. E ao mesmo tempo é a narradora da história, o filtro através do qual vemos tudo, o que cria uma cumplicidade inevitável com o espectador mesmo nos momentos mais destrutivos. Essa tensão entre empatia e julgamento é o coração emocional da série, e Zendaya sustenta-a durante horas de televisão sem que alguma vez quebre.

Euphoria estabeleceu um padrão de produção visual e narrativa que influenciou diretamente o que o público passou a esperar do drama juvenil de televisão.


As críticas que dividiram o público

Euphoria não foi recebida universalmente com entusiasmo. Há críticas legítimas que a série recebeu e que merecem mais atenção do que normalmente recebem nos artigos que se limitam a celebrar o seu impacto.

O sexo explícito como escolha ou como excesso?

A série tem cenas de nudez e de sexo que vão claramente além do que a maioria das produções premium considera necessário. A cena do balneário masculino no episódio piloto, com dezenas de pénis em ecrã, foi discutida longamente, com algumas leituras a vê-la como subversão deliberada do olhar masculino normativo e outras simplesmente como provocação sem propósito narrativo claro.

Hunter Schafer, que interpreta Jules, disse publicamente que algumas cenas a deixaram desconfortável durante as filmagens. Isso não invalida as escolhas criativas de Sam Levinson, mas levanta questões legítimas sobre poder e dinâmicas num set em que o criador tem controlo quase total sobre a produção.

O consumo de drogas, janela ou convite?

Esta é a crítica mais séria e a que tem mais substância. A Associação Americana de Psiquiatria e grupos de prevenção de dependências expressaram preocupação com a forma como algumas cenas representam o consumo, não pela existência das cenas, mas pela estética que as envolve. Quando Rue se droga e a câmara torna isso visualmente belo, há um problema de coerência entre mensagem e forma que a série nem sempre resolve.

Sam Levinson respondeu a estas críticas argumentando que a honestidade sobre a sedução da dependência é parte do retrato rigoroso da doença. O argumento tem fundamento. Mas não fecha completamente a questão.

Realismo versus hiperestetização

Euphoria retrata a realidade dos adolescentes ou uma versão hiperestilizada? A resposta honesta é: as duas coisas, e a tensão entre elas é intencional mas por vezes mal resolvida. Os adolescentes de Euphoria têm os problemas reais de adolescentes reais, mas habitam-nos com uma intensidade cinematográfica que a maioria das adolescências não tem. Isso serve a narração. Mas pode criar uma dissonância para espectadores que procuram reconhecimento directo em vez de metáfora amplificada.


O legado de Euphoria na televisão moderna

Euphoria e o que mudou depois
2019
Estreia de Euphoria T1 — novo padrão visual

A fotografia de Marcell Rév estabelece uma gramática visual para drama juvenil que não existia: iluminação neon, planos longos, sequências oníricas com função narrativa.

2020
Emmy e reconhecimento crítico — drama de prestígio

Euphoria é validada como produção de prestígio numa categoria onde a televisão juvenil raramente chega. Abre espaço para que outras séries do mesmo perfil sejam levadas a sério.

2022
T2 — recorde de audiências da HBO desde os Sopranos

19,5 milhões de espectadores na estreia. As plataformas concorrentes aceleram encomendas de drama juvenil ambicioso. O mercado reconhece que existe um público para séries que não subestimam o espectador adolescente.

2023–26
Influência na produção — ambição visual como standard ✦

Séries como The Idol (HBO), Sex Education (Netflix T4) e produções europeias de drama juvenil adotam ambições visuais e narrativas mais ousadas. O público passou a esperar mais, e a notar quando as séries ficam aquém.

A mudança das expectativas do público

Este é talvez o legado mais duradouro de Euphoria: não as séries específicas que influenciou, mas a mudança nas expectativas do público. Um espectador que cresceu com Euphoria tem agora uma referência diferente para o que drama juvenil pode ser. Tolera menos o simplismo moral. Espera mais da fotografia. Reconhece quando uma série está a tratar os adolescentes como público a instruir em vez de realidade a retratar.

Esse deslocamento de expectativas é difícil de reverter, e os criadores e produtoras sabem-no. As encomendas de drama juvenil nas plataformas de streaming após 2022 refletem uma pressão crescente para produzir com mais ambição. Nem todas as séries conseguem. Mas a fasquia existe, e Euphoria colocou-a lá.

Reflexão final

O verdadeiro impacto cultural de Euphoria não está nas audiências ou nos prémios. Está na forma como transformou discussões sobre identidade, saúde mental e juventude numa conversa global, e provou que uma série pode ser entretenimento, espelho social e fenómeno cultural simultaneamente.

O que a série fez de mais difícil foi recusar os atalhos. Não resolveu Rue. Não explicou Jules. Não absolveu Nate. Manteve as personagens em estados de indefinição que são desconfortáveis de observar precisamente porque são reconhecíveis. E num landscape mediático que favorece a resolução, a clareza e o arco narrativo satisfatório, essa recusa foi um ato de fidelidade raro ao que a adolescência, e a condição humana em geral, é de facto.

Se a série vai ter uma terceira temporada, ou quando, é uma questão em aberto. O que já não está em aberto é o espaço que ocupou, e a forma como esse espaço vai continuar a definir o que se espera do drama juvenil nos anos que se seguem.


Perguntas frequentes sobre Euphoria

Porque é que Euphoria ficou tão popular?
A combinação de produção visual ambiciosa, personagens moralmente complexas e temas que a maioria das séries adolescentes evitava, dependência, saúde mental, identidade de género, criou algo que o público reconheceu como honesto de uma forma diferente. A popularidade cresceu também organicamente através do TikTok, onde a estética da série se tornou uma tendência de participação ativa e não apenas de consumo passivo.
Euphoria representa a realidade dos adolescentes?
Parcialmente, e com amplificação deliberada. Os temas são reais, ansiedade, dependência, pressão social, exploração da identidade, mas são habitados com uma intensidade cinematográfica que a maioria das adolescências não tem. A série é mais metáfora do que documentário, e funciona melhor quando é lida dessa forma.
Qual foi o impacto de Euphoria na moda?
A influência de Euphoria na moda foi direta e documentada em dois níveis: a estética da maquilhagem, glitter, pedras decorativas, cores vibrantes, tornou-se tendência global através do TikTok com milhares de milhões de visualizações. E na indústria, marcas como Valentino e MAC adoptaram a linguagem visual da série em colecções e colaborações, num movimento pouco habitual em que a televisão influenciou a alta moda em vez do inverso.
Porque é que Zendaya recebeu tantos elogios em Euphoria?
A performance de Zendaya como Rue é tecnicamente exigente, a personagem existe em estados emocionais extremos durante longos planos sem corte, mas o que a tornou marcante foi a ausência de vaidade na interpretação. A recusa em tornar o sofrimento da personagem esteticamente confortável, combinada com a capacidade de criar empatia por alguém que toma decisões consistentemente destrutivas, é o tipo de trabalho que define uma carreira. Os dois Emmy refletem isso.

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