O Que Eles Revelam Sobre a Sua Carreira
Há atores que constroem carreiras. Há atores que constroem personagens que ficam. A confusão entre os dois é o erro mais comum de quem tenta resumir o que Johnny Depp fez ao cinema.
Popular não é sinónimo de bom. E a filmografia de Johnny Depp é um exemplo perfeito disso. Há filmes seus que arrecadaram centenas de milhões e que não entram nesta lista. Há filmes que quase ninguém viu e que estão no topo.
Esta seleção foi construída com base em três critérios: qualidade da interpretação, impacto cultural real e o que cada filme ainda diz anos depois de ter sido lançado. É uma análise editorial. Subjetiva, assumidamente. Mas resistente a quase qualquer objeção.
O melhor filme da carreira de Depp pode não ser aquele que estás a pensar. Provavelmente não é.
Porque é que Johnny Depp continua a ser um dos atores mais únicos de Hollywood?
Quando Johnny Depp apareceu nos ecrãs no início dos anos 80, Hollywood tinha planos para ele: galã, protagonista de blockbusters convencionais, um rosto para vender revistas. Recusou. Não uma vez, sempre. A escolha de personagens segue um fio condutor que se mantém ao longo de décadas: excêntricos, complexos, incompreendidos, situados nas margens da norma.
Ed Wood, o pior realizador da história do cinema. Jack Sparrow, um pirata bêbado que é sempre o mais inteligente na sala. Edward Scissorhands, uma criatura que nunca pertenceu ao mundo onde foi colocado. O padrão não é coincidência, é uma declaração estética. O que torna a filmografia de Depp tão distinta é o método: constrói a personagem de fora para dentro, da aparência para o interior, e o resultado são interpretações que ficam na memória não pela intensidade emocional crua, mas pela singularidade total. Não há duas personagens suas que se pareçam.
Em 2004, no mesmo ano em que o segundo filme dos Piratas estava a ser preparado, Depp protagonizou um dos filmes mais delicados da sua carreira. A história de J.M. Barrie e a família que inspirou Peter Pan, contada com uma subtileza que quase passa despercebida na primeira vez que se vê. A nomeação ao Óscar foi merecida. O prémio foi para outro, e o filme caiu fora do radar. É o mais subvalorizado da sua filmografia.

Edward D. Wood Jr. ficou para a história como o pior cineasta de sempre. Tim Burton fez o filme sobre ele a preto e branco, e entregou o papel a Depp. A interpretação é extraordinária porque Depp recusou a ironia fácil: Ed Wood podia ter sido uma caricatura. Depp interpretou-o como alguém que acreditava genuinamente no que fazia, cuja ignorância das próprias limitações era, de uma forma estranha, quase admirável. É o papel que melhor explica quem é Johnny Depp como ator.

Quando o estúdio viu as primeiras filmagens, entrou em pânico. O Jack Sparrow que Depp construiu, baseado numa mistura improvável de Keith Richards e Pepé Le Pew, não era o que ninguém tinha pedido. Os executivos da Disney perguntaram se estava bêbado nas filmagens. Depp defendeu a visão. O filme arrecadou mais de 650 milhões de dólares, Jack Sparrow tornou-se um dos personagens mais reconhecíveis da história do cinema popular e Depp recebeu uma nomeação ao Óscar por um papel num blockbuster de verão. Nunca antes tinha acontecido.

Se Edward Scissorhands mostrou o Depp que o público queria ver, Donnie Brasco mostrou o Depp que poucos esperavam. Baseado na história real do agente do FBI Joseph Pistone, infiltrado na máfia de Nova Iorque durante seis anos, é um thriller sem glamour sobre o custo psicológico de viver uma mentira. Ao lado de Al Pacino, Depp trabalhou com uma contenção rara na sua filmografia: menos maneirismo, menos construção exterior, mais escuta. É a sua interpretação mais naturalista, e provavelmente a melhor.

Há filmes que definem uma parceria. Edward Scissorhands definiu a relação entre Johnny Depp e Tim Burton, e ao fazê-lo, definiu também uma fase inteira do cinema americano. O desafio era quase impossível de formular: interpretar uma criatura que não fala, que comunica exclusivamente através de expressões e da forma como segura as próprias mãos afiadas, e fazê-lo de um modo que provoque empatia genuína. Depp foi buscar influências a Buster Keaton e ao mimo silencioso. O resultado é uma personagem que, coberta de cicatrizes e com tesouras onde deviam estar as mãos, parece de uma fragilidade perturbadoramente reconhecível. O impacto cultural não diminuiu em mais de três décadas. Continua a ser citado em cursos de cinema, em coleções de moda, como imagem instantaneamente reconhecível por gerações que nasceram depois da sua estreia. Por uma margem considerável.

Edward Scissorhands não chegou ao topo por nostalgia. É um filme construído com uma precisão que só se percebe quando se volta a vê-lo anos depois: cada decisão de Depp serve a personagem, cada silêncio diz mais do que qualquer linha de diálogo poderia dizer.
A diferença entre este e qualquer outro papel da sua carreira está em quem a personagem torna visível. Edward é o estranho em todos os sítios onde nunca foi bem-vindo. Esse sentimento atravessa gerações inteiras sem precisar de explicação.
"Filmes mais populares de Johnny Depp há muitos. Filmes que ainda fazes questão de recomendar daqui a vinte anos são estes cinco. E só estes cinco."
Qual é afinal o melhor filme de Johnny Depp?
A pergunta não tem uma única resposta. O que estes cinco filmes mostram em conjunto é uma carreira construída com uma coerência que só se percebe quando se afasta o ruído em volta. São filmes muito diferentes entre si, de géneros opostos, com registos completamente distintos. Mas em todos eles há uma personagem que só poderia ter sido feita desta forma por este ator.
Melhor atuação
Depp desaparece dentro da personagem sem truques visíveis. Sem maneirismo, sem construção exterior elaborada. É a sua interpretação mais honesta e a mais contida.
Filme mais influente
Jack Sparrow mudou o que se esperava de um protagonista de aventura. Nomeação ao Óscar por um blockbuster de verão. Não houve regresso ao ponto anterior.
Filme mais emocional
O trabalho mais subvalorizado da carreira. Subtil, maduro, genuinamente comovente. Um Depp que poucos viram e menos ainda conhecem bem.
Melhor filme de culto
Nenhum outro papel resume tão bem a sua filosofia como ator: toda a personagem, por mais absurda que pareça, merece ser levada completamente a sério.
Clássico intemporal
Quando um ator e um realizador encontram uma linguagem comum que é genuinamente sua, o resultado não envelhece. Continua relevante mais de três décadas depois. Por uma margem considerável.
A resposta depende sempre do critério. Mas o que estes cinco filmes explicam, acima de qualquer outra coisa, é porque Johnny Depp continua a ser uma figura singular no cinema, não pelo número de bilhetes vendidos, não pelas polémicas que marcaram os últimos anos, mas pela consistência com que, ao longo de décadas, escolheu personagens que precisavam de alguém disposto a levá-las a sério. Esse é o legado que fica.
Tens a tua própria lista? Discorda nos comentários, com argumento, se possível.
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