Fórmula 1 - 2026

|Juciara Ribeiro
Fórmula 1 - 2026
Desporto · F1 · 10 min

Antonelli, o regulamento novo e dois GPs que não aconteceram


A temporada de 2026 arrancou com tudo a mudar ao mesmo tempo. Um miúdo de 19 anos a ganhar três seguidas, a Red Bull em apuros, e uma guerra a cancelar duas corridas pelo meio.

A F1 de 2026 não é uma continuação com uns ajustes. É outra coisa. Carros mais pequenos, motores pensados de raiz, sem DRS, com mais eletricidade, e no meio de tudo isso, um estreante italiano de 19 anos a fazer o que nenhum piloto tinha feito antes.

Depois de três corridas, dois GPs foram cancelados por causa de um conflito no Golfo Pérsico. Quando a categoria voltou, em Miami, Antonelli foi buscar o terceiro triunfo seguido. Feito inédito para um estreante.

Aqui está tudo o que aconteceu, o que ficou por correr, e o que aí vem.


Técnica

O que mudou em 2026

Para quem acompanha a F1 há anos, este regulamento tem qualquer coisa de familiar e ao mesmo tempo parece que estamos todos a começar do zero. A maior reviravolta desde 2022, e nalguns aspetos desde 2014, quando chegaram os motores híbridos.

O fim do DRS é, simbolicamente, a mudança mais pesada. Desde 2011 que aquela asa traseira ajustável dividia opiniões. O novo sistema de aerodinâmica ativa tenta resolver o mesmo problema sem aquela dependência de estar a menos de um segundo da frente, embora o Modo Ultrapassagem preserve, pelo menos em parte, a mesma lógica, só que a nível elétrico.

  • Chassi Entre eixos reduzido 200 mm, largura menos 100 mm, peso mínimo de 768 kg, menos 30 kg face ao ano passado. Carros mais fáceis de seguir em pista.
  • Aerodinâmica Sem DRS. As asas dianteira e traseira são agora móveis, modo Curva para mais carga, modo Reta para menos arrasto. Ativação livre nas zonas definidas pela FIA.
  • Motor Divisão 50/50 entre potência elétrica e térmica. O MGU-K passou de 120 kW para 350 kW. A Ford voltou com a Red Bull. A Audi chegou a sério.
  • Estratégia Novos modos de gestão de energia, Boost, Recharge e Modo Ultrapassagem. Este ativa quando o piloto está a menos de um segundo do carro à frente.
  • Combustível 100% sustentável, produzido a partir de captura de carbono, resíduos urbanos e biomassa. Segundo os testes, o desempenho fica intacto.

"Carros 30 kg mais leves, sem DRS, 350 kW de potência elétrica. Isto não é uma atualização. É uma folha em branco, e nem todas as equipas a leram da mesma maneira."


Corridas

Mercedes domina. Antonelli lidera.

Se havia dúvidas sobre quem chegou melhor preparado à nova era, as três primeiras corridas trataram de as apagar. A Mercedes saiu do Japão com três vitórias em três rondas, duas de Antonelli, uma de Russell, e vantagem folgada no campeonato de construtores. A era da prata está de volta, desta vez com um rapaz de 19 anos à frente.

1 GP da Austrália · 8 mar

Russell vence, Antonelli segundo, Leclerc terceiro. Dobradinha logo na abertura. Bortoleto marca os primeiros dois pontos da Audi na história da F1.

2 GP da China · 15 mar

Primeira vitória de Antonelli na carreira. Segunda dobradinha da Mercedes. Hamilton sobe ao pódio pela primeira vez com a camisola da Ferrari, ao fim de 27 corridas sem o conseguir.

Em Xangai, Antonelli tornou-se o segundo piloto mais jovem de sempre a vencer um Grande Prémio, 19 anos e 202 dias. Só Verstappen foi mais novo, com 18 anos em Barcelona em 2016. Com aquela vitória, devolveu também à Itália um lugar no topo do pódio que não existia desde Fisichella na Malásia em 2006.

Numa corrida com sete abandonos e quatro pilotos que nem chegaram a largar, o italiano geriu a pressão, os pneus gastos e uma saída de pista a cinco voltas do fim sem perder a cabeça, nem a vantagem.

Antonelli após 3 corridas
Vitórias 2
Pódios 3
Poles 1
Pontos 72
Idade 19 anos
Kimi Antonelli — GP da China 2026

Do outro lado do espelho está Verstappen. O tricampeão soma dois abandonos nas primeiras três corridas, falha de motor na China, qualificação difícil no Japão, com apenas 12 pontos. A parceria com a Ford ainda às voltas com problemas de fiabilidade. A equipa de Milton Keynes está tão longe do topo como em qualquer momento da última década. É desconfortável de dizer, mas é o que os números mostram.

"Como em 2014, a Mercedes chegou a uma nova era regulamentar melhor preparada do que toda a gente. A questão não é se as outras equipas chegam lá, é quando."


Calendário

A guerra que parou a F1

Depois de três GPs em março, a F1 parou. Não por uma pausa prevista no calendário, por razões geopolíticas. O agravamento do conflito no Golfo Pérsico, que envolve os Estados Unidos, Israel e o Irão, afetou diretamente o Bahrain e a Arábia Saudita, os dois países anfitriões seguintes.

A FIA e a F1 determinaram que as corridas não podiam realizar-se dentro das condições de segurança exigidas. Resultado: quase 35 dias entre o GP do Japão, a 29 de março, e o regresso em Miami, a 3 de maio.

Cancelar dois eventos seguidos por causa de um conflito armado na região não tem precedente na era moderna da categoria. A decisão era inevitável, mas não deixou de criar uma situação sem paralelo numa temporada que mal tinha arrancado.

A pausa forçada
GPs cancelados 2
Dias de pausa ~35
GPs afetados Bahrain · Arábia
Regresso Miami, 3 mai

"O mundo entrou no paddock em abril de 2026. E a F1, pela primeira vez em muito tempo, teve de esperar."

Do ponto de vista desportivo, a interrupção congelou um campeonato a meio da sua formação. Com a Mercedes na frente, a pausa deu a McLaren, Ferrari e Red Bull um tempo de desenvolvimento que não estava nos planos. As fábricas continuaram a trabalhar, e toda a gente sabe o que isso quer dizer.


Classificação

As contas após três rondas

Com o Japão concluído e dois GPs cancelados à frente, a classificação pintava um retrato nítido: a Mercedes em fuga, a Ferrari sólida em segundo, e a Red Bull numa situação que, há dois anos, ninguém teria acreditado ser possível.

Campeonato de pilotos — após 3 rondas
Piloto Equipa Pts
1 Kimi Antonelli Mercedes 72
2 George Russell Mercedes 63
3 Charles Leclerc Ferrari 49
4 Lewis Hamilton Ferrari 41
5 Lando Norris McLaren 25
6 Oscar Piastri McLaren 21
7 Oliver Bearman Haas 17
8 Pierre Gasly Alpine 15
9 Max Verstappen Red Bull 12
10 Liam Lawson Racing Bulls 10
Campeonato de construtores — após 3 rondas
Equipa Pts
1 Mercedes 135
2 Ferrari 90
3 McLaren 46
4 Haas 18
5 Alpine 16
6 Red Bull 16
7 Racing Bulls 14
8 Audi 2
9 Williams 2
10 Cadillac 0

A diferença de apenas 9 pontos entre Antonelli e Russell dentro da própria Mercedes é o primeiro dado a reter. Russell não está eliminado, tem algo que o companheiro ainda não tem: experiência em campeonatos longos. Mas 19 anos, três pódios em três corridas, e a cabeça que mostrou na China sugerem que a Mercedes pode já ter o seu próximo campeão.

Verstappen com 12 pontos em três corridas, dois abandonos, empatado em sexto nos construtores com a Alpine. Há dois anos esta frase seria impossível de escrever.


GP de Miami

O regresso. E um feito inédito.

Depois de um mês parado, a F1 voltou a Miami com uma corrida que valeu uma temporada. Trovoada obrigou a antecipar o início por três horas. Antonelli bloqueou os pneus na primeira curva ao tentar fechar a porta a Leclerc. Verstappen girou logo nos primeiros metros. Os acidentes de Hadjar e Gasly nas voltas iniciais chamaram o Safety Car. O caos instalou-se.

E no meio de tudo isso, Antonelli foi buscar a terceira vitória seguida. Nenhum estreante tinha feito isso antes na história da Fórmula 1.

Leclerc assumiu a frente cedo, mas Antonelli respondeu com uma paragem antecipada que lhe valeu um undercut cirúrgico. Recolocado na frente, não a largou até à bandeira de xadrez. Norris andou na sua cauda durante grande parte da corrida sem conseguir atacar.

A fase final foi de tensão. Piastri aproveitou um erro de Leclerc na última volta, o monegasco foi ao relvado, danificou o carro e perdeu vários lugares. Acabou ainda penalizado em 20 segundos pós-corrida por sair repetidamente dos limites, caindo até ao oitavo.

No rádio, depois de cruzar a linha, Antonelli foi direto: "Não foi fácil, mas conseguimos." Aos 19 anos, já fala como alguém habituado a ganhar.

Miami em números
Vitória consecutiva de Antonelli 3.ª
Margem para Norris 3,264s
Penalização de Leclerc +20s
Feito inédito Sim
Resultado final — GP de Miami 2026
1
Kimi Antonelli
Mercedes
57 voltas
2
Lando Norris
McLaren
+3,264s
3
Oscar Piastri
McLaren
+27,092s
4
George Russell
Mercedes
+43,051s
5
Max Verstappen
Red Bull
+48,949s *
6
Lewis Hamilton
Ferrari
+53,753s
7
Franco Colapinto
Alpine
+1'01,871s
8
Charles Leclerc
Ferrari
+1'04,245s *
* Inclui penalizações pós-corrida
F1 2026 — GP de Miami

Calendário

O que aí vem

Com quatro corridas disputadas e vinte ainda por acontecer, isto está genuinamente no início. A próxima prova é o GP do Canadá, de 22 a 24 de maio em Montreal, e a partir daí o calendário encadeia-se sem grandes interrupções até novembro.

Próximas corridas
  • Canadá 22–24 de maio · Circuito Gilles Villeneuve, Montreal
  • Mónaco 5–7 de junho · Circuit de Monaco
  • Espanha Junho · Estreia de Madrid no calendário da F1
  • Grã-Bretanha Julho · Silverstone
  • Brasil Novembro · Interlagos
A McLaren consegue aproximar-se?

O ritmo de Norris em Miami, a três segundos no final, foi a aproximação mais perigosa a Antonelli até agora. A McLaren parece ser a candidata mais credível a curto prazo.

A Ferrari estabiliza?

Os erros e penalizações de Leclerc em Suzuka e Miami custaram pontos que podem fazer falta mais tarde. A dinâmica com Hamilton ainda não foi testada com pressão de campeonato real.

A Red Bull resolve a fiabilidade?

Verstappen precisa primeiro de carros que acabem as corridas. Só depois pode pensar em velocidade. A parceria com a Ford ainda está a rodar, e o tempo vai passando.

"O maior inimigo de Antonelli pode acabar por ser ele próprio. Quando as coisas se complicarem, e na F1 acabam sempre por se complicar, é que a verdadeira medida do italiano vai ser feita."

Na Mercedes, Antonelli e Russell vão inevitavelmente colidir de interesses à medida que os pontos forem acumulando. A diferença é de 25 pontos depois de Miami, suficiente para a equipa jogar nos dois pilotos por enquanto. Mas isso não dura para sempre, e quando a equipa tiver de escolher, a resposta vai dizer muito sobre o que a Mercedes quer para os próximos anos.

São quatro corridas. Vinte pela frente. A temporada está a começar, e já deu matéria suficiente para encher uma época inteira noutros tempos. Quando a F1 voltar ao Canadá no fim do mês, as perguntas continuam todas em aberto.


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