Nem todas as marcas interessantes nascem em Paris ou Milão. Da Galiza a Copenhaga, do Porto a Londres, há uma nova geração de marcas europeias a construir identidade própria, fora do radar do mainstream, por agora.
As marcas emergentes europeias têm vindo a ocupar um espaço que durante décadas pertenceu quase exclusivamente às grandes casas de moda. Não por acaso, a geração mais nova de designers cresceu com acesso direto a fábricas, a comunidades online e a um público que já não precisa de uma revista de moda para descobrir algo novo. O resultado são marcas pequenas, com identidade muito clara, a nascer em cidades que não costumavam estar no mapa da moda: Barcelona, Copenhaga, Amesterdão, o Porto.
Esta lista reúne dez marcas que valem a atenção, organizadas por país, sem hierarquia entre elas. Todas partilham uma característica: sabem exatamente o que são, e não estão a tentar ser nada mais do que isso.
Paloma Wool nasceu em 2014 em Barcelona como projeto artístico antes de ser marca de moda, e essa origem continua a definir tudo o que faz. A fundadora, Paloma Lanna, reúne fotógrafos e artistas para colaborar em cada coleção, o que dá às peças uma linguagem visual reconhecível mesmo antes de se ver a etiqueta. As coleções são lançadas fora do calendário sazonal tradicional, com peças atemporais que privilegiam a identidade sobre a tendência.

A Miista foi fundada em 2010 pela designer galega Laura Villasenin, que se mudou para Londres para estudar design de calçado. O resultado é uma marca que mistura a sensibilidade espanhola com a irreverência da cena londrina, calçado escultórico, feito à mão em Espanha e Portugal, que equilibra o estranho com o elegante sem nunca comprometer o conforto. Em 2021 a marca expandiu-se para vestuário, e em 2025 apresentou pela primeira vez na New York Fashion Week.

Fundada em 2020 por Charlotte Eskildsen, a The Garment é uma das expressões mais consistentes do chamado quiet luxury escandinavo. A herança de Eskildsen em malharia e alfaiataria precisa traduz-se em peças desenhadas para durar décadas, sem logos, sem ruído, com um afeto declarado por roupa vintage que se reflete em coleções que parecem atravessar várias épocas ao mesmo tempo. É moda que não pede para ser vista de longe, mas que recompensa quem olha com atenção.

A Sunflower faz parte da nova geração de marcas masculinas escandinavas que tratam o básico como uma disciplina, não como um ponto de partida. Calças, camisolas e peças de exterior com cortes limpos e uma paleta contida, a marca não procura impressionar com volume de produto, mas com a precisão de cada peça. É menswear pensado para quem prefere qualidade silenciosa a logótipos visíveis.

A Róhe tornou-se, em poucos anos, uma referência do minimalismo premium contemporâneo. Calças de alfaiataria, blazers estruturados e peças em couro com uma paleta quase inteiramente neutra, a marca aposta tudo na qualidade do corte e do tecido, sem nunca recorrer a estampados ou detalhes decorativos para chamar a atenção. É o tipo de marca que cresce por recomendação entre quem já entende de moda, mais do que por campanha publicitária.

"As marcas mais interessantes da Europa hoje não estão a competir pela atenção imediata, estão a construir relevância lenta, peça a peça, década a década."
A Completedworks trata joalharia como escultura em escala reduzida. As peças, em prata, ouro e pérolas barrocas, têm formas irregulares e assimétricas que parecem ter sido moldadas à mão em vez de fundidas em série, o que de facto acontece em muitos casos. A marca colabora regularmente com artistas e galerias, e tem uma linguagem visual que se aproxima mais da arte contemporânea do que da joalharia tradicional, sem nunca perder a usabilidade do dia a dia.

A designer romena Ancuta Sarca construiu uma assinatura muito própria ao combinar elementos de sapatilhas desportivas com referências de calçado de salto e botas estruturadas, híbridos que parecem ter sido desenhados em duas marcas diferentes e depois fundidos numa só peça. É calçado experimental que circula com facilidade entre o streetwear e a moda de passarela, e que se tornou favorito de estilistas que procuram peças com presença visual forte.

A DICCI é uma marca portuense de joalharia e acessórios unissexo construída sobre um branding visual muito reconhecível, peças que recusam a divisão tradicional entre joalharia masculina e feminina, com um posicionamento que mistura referências de moda contemporânea com produção portuguesa. É um exemplo de como uma marca pequena pode construir identidade forte sem depender de um catálogo extenso, apostando antes na coerência entre cada peça e a narrativa visual da marca.

A Polite Worldwide representa uma vaga de streetwear português com ambições claramente internacionais. Peças com cortes limpos, gráficos discretos e uma paleta contida, a marca evita o exagero gráfico que define grande parte do streetwear convencional, optando por uma abordagem mais próxima do minimalismo escandinavo aplicado à cultura urbana. É um dos nomes portugueses com maior potencial de chegar a mercados fora da Península Ibérica.

A Aeyde ocupa um espaço que poucas marcas de calçado conseguem preencher bem: o ponto intermédio entre o acessível e o luxo. Fabricado em pequenas fábricas familiares na Itália, com couros de qualidade e linhas clássicas atualizadas, o calçado da marca berlinense funciona como alternativa honesta às grandes casas de luxo, sem o preço inflacionado, mas também sem comprometer a qualidade de produção. É a prova de que nem todo o bom design precisa de vir com um preço de quatro dígitos.

Estas marcas crescem sobretudo através de canais alternativos, como redes sociais, editoriais, comunidade e influência estética, em vez de dependerem de publicidade tradicional em grande escala. Construíram-se devagar, com identidade clara desde o início, em cidades que raramente aparecem nos mapas tradicionais da moda.
Vale a pena seguir o trabalho de qualquer uma delas. Não porque estejam destinadas a tornar-se gigantes, algumas vão crescer, outras vão manter-se pequenas por escolha, mas porque representam uma forma de fazer moda que aposta na coerência em vez do volume. É essa aposta que, no fim, costuma envelhecer melhor.
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