De Jonathan Anderson no Dior a Chaumet, Charlotte Chesnais e Aurélie Bidermann, o que os desfiles e apresentações de Paris disseram sobre o futuro da joalharia masculina.
Esta é a versão do que aconteceu mesmo, não do que parecia que ia acontecer.

O que aconteceu realmente em Paris
A Paris Fashion Week de moda masculina A/W 2026 decorreu entre 20 e 25 de janeiro. Foram 67 marcas, 35 desfiles e 32 apresentações. Os grandes momentos foram Jonathan Anderson na segunda coleção de homem para o Dior, Pharrell Williams a levar a Louis Vuitton a um registo de "living concept" com arquitectura de Not a Hotel, e Véronique Nichanian a encerrar 37 anos na Hermès com uma despedida silenciosa e sem discurso. A joalharia não foi o tema central desta semana, mas foi um detalhe que apareceu nos sítios certos, da forma certa, e que vale a pena dissecar.
Depois, em março, veio a semana de prêt-à-porter feminino onde, ironicamente, a conversa sobre joalharia masculina ficou mais nítida. A WWD documentou uma temporada de apresentações de joalharia em Paris onde a palavra-chave era "auto-expressão": gemas do tamanho de rebuçados, ouro apesar dos preços máximos históricos, e uma abordagem simultaneamente corajosa, irónica e sem desculpas. E várias dessas tendências saíram de criadores que trabalham claramente sem distinção de género.
É esse o território que vamos explorar aqui, o que emergiu de Paris em 2026 como linguagem de joalharia relevante para homem, com fontes verificadas e sem misturar o que se viu com o que seria bonito ter visto.
O panorama: autoexpressão como única diretriz
A palavra que a WWD usou para descrever a joalharia vista em Paris na temporada A/W 2026 foi "self-expression", e não de forma vaga. Foi a ausência de uma diretriz única que definiu a temporada. Não havia um único metal dominante, uma única forma, um único nível de volume. Havia, em vez disso, uma permissão coletiva para ir mais longe.
Isto não aconteceu em abstrato. Aconteceu num momento em que o ouro estava nos preços mais altos da história, e os criadores responderam não com contenção, mas com o oposto. A Charlotte Chesnais lançou uma linha de joalharia fina em ouro de 18 quilates, diamantes e pérolas. A Chaumet apresentou um anel multi-dedo que cobre o dorso da mão inteiro em motivo de colmeia. A Stéphanie D'heygere construiu peças que jogam com humor e absurdo sem nunca perder a elegância.
No lado da moda masculina, Jonathan Anderson no Dior usou joalharia não como acessório mas como elemento estrutural, as "bejewelled epaulettes" nas ombreiras de camisas de xadrez casuais foram a imagem mais comentada da semana de homem. Esse é o sinal mais claro: quando a joia sai da categoria de "extra" e entra na categoria de "estrutura", a conversa muda.
As 5 Tendências de Joias Masculinas de Paris 2026
Joalharia estrutural: quando a peça é o look
Dior Homme · Jonathan Anderson · Janeiro 2026A segunda coleção de homem de Jonathan Anderson para o Dior, apresentada no Museu Rodin a 21 de janeiro, partiu das festas de jantar de Paul Poiret durante a Belle Époque, onde a elite artística parisiense se mascarava e brincava com identidades. O resultado foi uma coleção eclética, cheia de referência, onde os detalhes eram o argumento. E os detalhes mais falados foram precisamente os de joalharia: ombreiras de camisas de xadrez casualíssimas cobertas de pedras semi-preciosas a fazer lembrar epaulettes de príncipe, cintos de latão forjados na forma de molduras de espelho antigo, e botões de madrepérola nos frock coats de camurça.
O que Anderson demonstrou com estas escolhas não foi excesso, foi intenção. Uma camisa de xadrez poderia existir em qualquer guarda-roupa do mundo. As ombreiras com pedras tornam-na uma peça que só existe no Dior, nesta temporada, com este ponto de vista. A joia não acompanha a roupa; define-a. É a diferença entre styling e design.

Ombreiras de pedras semi-preciosas sobre camisas casuais. Cintos de latão moldados em forma de espelhos antigos sobre casacos de alfaiataria. Botões de madrepérola em frock coats de camurça e veludo. A joia como elemento construtivo, não decorativo.
Quando a joalharia passa a ser estrutural, a sustentar a silhueta em vez de a ornar, muda a lógica de como a pensamos. Deixa de ser a última decisão antes de sair de casa e passa a ser a primeira. É a tendência mais radical das cinco precisamente por isso.
Não vais usar ombreiras de pedras numa segunda-feira. Mas o princípio é aplicável: escolhe uma peça de joalharia que defina o look em vez de o completar. Um broche colocado no lugar certo numa blazer simples faz o que as epaulettes do Dior fazem, concentra o olhar e cria intenção onde antes havia neutralidade.
Pérolas: a segunda geração, agora sem aspas
Riefe (Rie Harui) · Yohji Yamamoto · Wouters & HendricksRie Harui, a joalheira japonesa que assina as peças de cabeça que se viram na passerelle de Yohji Yamamoto, apresentou em Paris a nova coleção do seu label próprio Riefe com um detalhe que chamou a atenção: pela primeira vez na sua carreira, adicionou pérolas ao seu léxico de materiais. A razão que deu à WWD foi pessoal e direta: descreveu a pérola como "uma matéria nascida não da perfeição, mas da transformação", um material que cresce a partir de irritação e pressão, que não é escolhido mas acontece. As suas pérolas Akoya aparecem entre padrões hexagonais inspirados em cristais e favos de mel, numa arquitetura que é o oposto da pérola convencional.
Ao mesmo tempo, a Wouters & Hendricks, com 40 anos de história em Antuérpia, apresentou para a temporada uma versão da pérola que é o oposto da discrição: esferas XXL com montagens de prata visíveis a fazer lembrar garras. Pérolas que cresceram, que ficaram maiores do que deveriam, que não pedem licença. A pérola masculina de 2026 não é a pérola de Harry Styles de 2021. É algo mais arquitetónico e menos conciliador.

Pérolas Akoya em estruturas geométricas hexagonais no Riefe. Esferas de pérola XXL com montagens de prata explícitas na Wouters & Hendricks. Pérolas irregulares barrocas como contraste a materiais industriais. A pérola como elemento de tensão, não de elegância suave.
A pérola chegou ao ponto em que já não precisa de se justificar em contexto masculino. O que 2026 traz é a segunda geração, não a provocação, mas a exploração. Designers usam-na como qualquer outro material: com intenção específica, sem precisar de fazer dela um gesto político.
A versão mais acessível desta tendência é um único pendente de pérola irregular numa corrente fina. Escolhe pérolas barrocas em vez de redondas perfeitas, têm mais carácter e integram-se melhor em looks casuais. Se já tens pérolas e queres ir mais longe, uma pulseira com montagem de metal visível é o próximo passo natural.
Volumes sem contenção, a temporada do "too much"
Chaumet · Stéphanie D'heygere · Aurélie BidermannA imagem que a WWD usou para descrever a joalharia de Paris nesta temporada foi exacta: "gems the size of hard candy", gemas do tamanho de rebuçados. Não é hipérbole; é descrição. E aconteceu de forma consistente em apresentações muito diferentes entre si. A Chaumet levou o motivo da abelha até ao limite com um anel multi-dedo que cobre o dorso da mão inteiro, hexágonos de ouro com diamantes de tamanhos variados espalhados como uma colmeia sobre a pele. A Aurélie Bidermann trouxe uma coleção com tema de safári onde os volumes eram tão grandes quanto as referências: um punho de madeira com cara de leão esculpida, pendentes de 18 quilates de ouro banhado com faixas pretas a evocar zebras sobre cordão em tom-sobre-tom.
A Stéphanie D'heygere, que a WWD descreve como a criadora que "lê melhor a sala" de toda a joalharia parisiense, foi na direcção do humor: anéis com solitários escalados para proporções exageradas em colaboração com Marie Adam-Leenaerdt, e colares que misturam fitas, madeixas de cabelo falso e ganchos de cabelo pastel numa colaboração com a Jenny Fax de Tóquio. O excesso como argumento deliberado, não como lapso de edição.

Anel multi-dedo de colmeia da Chaumet a cobrir o dorso inteiro da mão. Punhos de madeira esculpida com animais na Aurélie Bidermann. Solitários em proporções exageradas e absurdas na Stéphanie D'heygere. O volume como decisão, não como excesso.
O minimalismo extremo esgotou-se como posição estética. O "menos é mais" funcionou durante anos; o mercado começou a querer saber o que fica quando se abandona essa restrição. Paris 2026 respondeu: fica o volume, o humor, a presença, a referência. Fica algo que merece ser olhado de perto.
Não precisas de um anel multi-dedo para apropriar este espírito. Um único anel com volume incomum, um signet mais largo do que o normal, uma pedra maior do que esperavas, uma forma geométrica com presença, já comunica o mesmo princípio. A chave é que a peça mereça atenção. Se não a merece, não cumpre a função.
Para quem quer ir mais longe: um punho (cuff) em metal ou material inesperado no pulso é a versão mais fácil do "too much" desta temporada. Escolhe um e deixa o resto do look respirar à volta dele.
"Gems the size of hard candy were on display, and despite sky-high gold prices, there was no shortage of glittering metal visible in showrooms across the city."
WWD · Paris Fashion Week Jewelry Highlights · Março 2026O broche: o acessório do ano tem nome
Saint Laurent · Givenchy (Stephen Jones) · Antonin Tron no BalmainO broche apareceu em múltiplos desfiles de Paris A/W 2026 com uma consistência que não pode ser ignorada. No Saint Laurent, apresentado numa residência modernista com vista para a Torre Eiffel, os modelos terminaram os looks com broches cravejados de pedras colocados como botão de fecho em casacos de renda sobre bodysuits de renda. A própria WWD e o Who What Wear documentaram o momento com a mesma conclusão: "big bejeweled brooches" estavam a consagrar-se como o "It piece" da temporada de Outono. A Saint Laurent "doesn't play" com acessórios, como escreveu o Who What Wear, e quando escolhe um como tema central, o mercado segue.
Na Givenchy, o chapeleiro Stephen Jones criou chapéus que pareciam t-shirts a ser puxadas sobre a cabeça, e os modelos usavam-nos com grandes "doorknocker earrings", brincos de argola pesada que em contexto masculino funcionam exactamente como um broche: uma peça com peso e presença que define o look antes de qualquer outra decisão. No Balmain, Antonin Tron, na sua estreia, regressou às ombreiras estruturadas de Pierre Balmain e ao outerwear de inspiração militar, e a joalharia que acompanhou os looks tinha o mesmo peso: declarativa, sem hesitações.

Broches com pedras como fecho funcional-decorativo no Saint Laurent. Brincos de argola pesada como peça central no Givenchy com chapéus de Stephen Jones. Joalharia declarativa no Balmain de Tron. O broche como afirmação, não como nostálgia.
O broche é o acessório que mais directamente transforma a leitura de uma peça de roupa, um casaco com broche é outro casaco. Que tenha reaparecido em múltiplas casas de diferentes registos (de Saint Laurent ao Balmain) na mesma temporada é o sinal mais claro de que não é coincidência.
O broche em contexto masculino funciona melhor em lapelas de blazer, na gola de um casaco de trabalho, ou como fechamento alternativo num blusão aberto. A escala importa: um broche pequeno em lapela tem impacto de detalhe; um broche grande na parte central de uma peça tem impacto de declaração. Decide qual queres comunicar antes de o colocar.
O ponto de entrada mais fácil é um broche de metal simples com forma geométrica, não tem de ter pedras para ter presença. A forma e o posicionamento fazem o trabalho.
Correntes de arquitetura, a corrente como escultura
Charlotte Chesnais · Shihara · Celine (Michael Rider)Charlotte Chesnais é, desde há anos, uma referência em joalharia de arquitectura, peças sinuosas e escultóricas com uma modernidade que é especificamente francesa no melhor sentido. Para a temporada A/W 2026, a designer lançou a sua primeira linha de joalharia fina em ouro de 18 quilates, diamantes e pérolas: um passo que não é apenas comercial, é declarativo. A Charlotte Chesnais que fazia peças de alta-joalharia acessível agora assina peças que compete directamente com as grandes casas de joalharia parisienses, e a forma como o faz é com a mesma linguagem de linhas curvas e volumes inesperados que sempre a definiu.
O Shihara, label japonês de Yuta Ishihara, trouxe à temporada a sua série Node, agora em versões de ouro de 18 quilates que se parecem com correntes de bola preciosas. Os anéis bisectados em ângulos de 45, 90 e 180 graus criam conjuntos modulares que encaixam entre si, o que muda a forma de pensar a corrente: não como peça singular, mas como sistema. Já a Celine de Michael Rider, que apresentou em Paris uma coleção centrada em "charm bracelets" abundantes e sapatos-chinelo coloridos, trouxe uma visão de correntes e pulseiras como algo que se acumula com o tempo, não se compra de uma vez.

Charlotte Chesnais lança joalharia fina em ouro 18k com a linguagem escultórica que a define. Shihara apresenta correntes-bola e anéis modulares bisetados como sistemas, não peças isoladas. Celine aposta em charm bracelets acumulados como expressão de história pessoal.
A corrente deixou de ser simples. Não no sentido decorativo, no sentido conceptual. Quando o Shihara esconde o fecho como assinatura, quando a Charlotte Chesnais faz uma corrente que parece uma escultura, estão a dizer que a corrente tem o mesmo direito a ser pensada com profundidade que qualquer outra forma de joalharia.
A linguagem da corrente-arquitetura é mais fácil de apropriar do que parece. Procura correntes com links de formas inesperadas, ovais assimétricos, losangos, formas bissetadas, em vez de correntes de bola ou elo clássico. Uma corrente com personalidade própria tem mais impacto sozinha do que três correntes convencionais empilhadas.
Se o orçamento for limitado, o aço inoxidável com boa espessura e acabamento polido fica muito próximo do ouro em leitura visual. O que importa é a geometria, não o material.
O que Paris 2026 disse sobre a masculinidade e a joia
Há uma lição transversal às cinco tendências que é mais importante do que qualquer uma delas individualmente: Paris 2026 abandonou definitivamente a ideia de que existe uma "joalharia masculina adequada" separada da joalharia em geral. O que Jonathan Anderson fez no Dior, o que Rie Harui fez no Riefe, o que a Chaumet fez com o anel de colmeia, nenhum deles se preocupou com categorias de género. Preocuparam-se com intenção, com volume, com arquitetura, com referência cultural.
Isso é uma mudança real. Não porque os homens não usassem joias antes, usavam, em épocas diferentes, em culturas diferentes. Mas porque o discurso oficial da moda masculina europeia era, há quinze anos, que a discrição era uma virtude em si mesma. Esse discurso acabou. O que Paris mostrou é que a discrição pode ser uma escolha entre muitas, mas deixou de ser a única escolha legítima.
O contexto cultural que tornou isto possível é bem documentado: uma geração inteira cresceu com referências masculinas, de Bad Bunny a Jonathan Anderson, de Timothée Chalamet a Tyler, the Creator, que trataram a joia como extensão da identidade pessoal, não como concessão ou provocação. Quando essa geração tem poder de compra e influência cultural, o mercado adapta-se. Paris A/W 2026 é o reflexo dessa adaptação.
Como adaptar ao guarda-roupa real: o que funciona fora da passerelle
Há uma diferença entre o que se vê numa passerelle e o que funciona num dia de trabalho ou num sábado à tarde. Estas são as orientações que fecham essa distância.
O princípio mais consistente de todas as cinco tendências: uma peça escolhida com razão tem mais impacto do que várias escolhidas por acumulação. Começa por identificar qual das tendências faz sentido para o teu estilo, e faz essa uma vez, bem.
Quando a joia é grande, punho volumoso, anel multi-dedo, broche statement, o resto do look pede contenção. Não porque seja uma regra, mas porque a atenção tem limite. Se tudo compete, nada ganha. Deixa a peça respirar.
A tendência mais duradoura de Paris 2026 foi a do Shihara e da Celine: correntes e pulseiras como sistema acumulado ao longo do tempo, não comprado de uma vez. Constrói o teu conjunto devagar. Uma peça de qualidade que fica anos é mais interessante do que cinco compradas na mesma tarde.
Paris não sugeriu, declarou
As cinco tendências que Paris A/W 2026 documentou, joalharia estrutural no Dior, pérolas arquitetónicas no Riefe e Wouters & Hendricks, volumes sem contenção na Chaumet e Aurélie Bidermann, o broche como peça-chave em Saint Laurent e Givenchy, e correntes como sistemas na Shihara e Charlotte Chesnais, partilham uma coisa: nenhuma delas pediu permissão.
É esse o sinal mais claro do momento em que estamos. A joalharia masculina não precisa de se justificar, não precisa de se explicar, não precisa de enquadramento cultural antes de ser usada. É uma ferramenta de expressão disponível, com cinco direções concretas que saíram de Paris com credencial de temporada e aplicação imediata.
O que vem a seguir? A SS27 de homem, que decorre em Paris de 23 a 28 de junho de 2026, vai dar as primeiras pistas sobre se estas tendências se aprofundam ou se a próxima conversa já é outra. Mas o que A/W 2026 estabeleceu vai durar mais do que uma estação. Quando casas como o Dior, Saint Laurent e Chaumet convergem na mesma direção na mesma temporada, não estão a seguir uma tendência. Estão a criá-la.
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