Gucci fechou a Broadway. E fez disso o desfile mais honesto dos últimos anos
Na noite de 16 de maio, a Times Square deixou de pertencer a toda a gente. Por algumas horas, foi só Gucci.

Havia qualquer coisa de irritante na ideia, quando se ouviu pela primeira vez. Fechar a Broadway. Pôr uma passarela em cima do asfalto. Usar os painéis da Times Square, aqueles painéis que toda a gente odeia mas não consegue deixar de olhar, para transmitir um desfile de moda. Parecia demasiado óbvio, ou demasiado calculado, não sei bem.
E depois aconteceu, a 16 de maio, e a verdade é que funcionou de uma maneira que é difícil de explicar sem soar exagerado.
Era o primeiro Cruise de Demna para a Gucci. A coleção chama-se GucciCore, fatos de risca, peacoats, saias lápis, casacos de pele, vestidos de gala, tudo junto numa passarela que cheirava a cachorros-quentes e soava a buzinas. Não foi editado. Foi mesmo assim de propósito.
"Queria mostrar esta coleção no tipo de pessoas que se cruzam na rua, uma pluralidade de estilos que se intersectam como as ruas da cidade." — Demna
A coleção
Peças de guarda-roupa que não saem de moda porque nunca estiveram propriamente "na moda". A aposta mais comercial de Demna até hoje, assumidamente.
Os fatos têm qualquer coisa de Tom Ford. As faixas web são claramente Michele. Demna não apaga nada, vai buscar tudo e monta outra coisa.
Peacoats em lã inglesa, a mesma usada pela Guarda Real britânica, segundo a marca, casacos de pele, trench coats. O exterior como cartão de visita.
Dez por cento de experimental, o resto para vestir na cidade. É raro uma coleção de luxo dizer isto assim tão claramente.
Coleção limitada de acessórios e malas só disponível nas lojas de Nova Iorque e online nos EUA. A cidade como produto.
Tom Brady, Kim Kardashian, Mariah Carey, Cindy Crawford, Anna Wintour. Nenhuma hierarquia aparente. Toda a gente ali, igual.

A Times Square é o sítio mais improvável para um desfile de luxo. Barulhenta, democrática ao extremo, cheia de turistas com selfie-sticks. Não tem nada da exclusividade que o luxo convencional cultiva há décadas.
E é exactamente por isso que fazia sentido. Demna disse-o ele próprio: "Adoro esse contraste. A Gucci é estranha, é um pouco divertida. Precisávamos de torcer isso de alguma forma." Os painéis que normalmente vendem hamburguers e musicais passaram a transmitir o desfile. A ironia foi o argumento.
A Love Parade fecha uma secção do Boulevard. Modelos entre marquises de cinema e turistas que não faziam ideia do que estava a acontecer.
Cruise 2026 dentro de um palácio renascentista, com final na Piazza Santo Spirito. Mais clássico, mas já com a mesma lógica de usar a cidade como palco.
Cruise 2027. Broadway fechada entre a 46th e a 48th. 50 e tal painéis digitais. O mais ambicioso até hoje, e o mais arriscado.
"Quando a moda ocupa o espaço público, deixa de ser um evento para iniciados. Passa a ser outra coisa. Não sei se melhor, mas definitivamente diferente."
É uma pergunta legítima. Quando Tom Brady desfila de couro dos pés à cabeça e Mariah Carey aparece num casaco longo cor de marfim ao lado de Shawn Mendes, isto é moda ou é espectáculo calculado?
A resposta honesta, e creio que a Gucci sabe isso, é que é as duas coisas. E pela primeira vez em muito tempo, não estão a tentar esconder a segunda. O GucciCore chama-se assim mesmo: core. Básicos. Coisas para vestir. Não há romantismo nenhum na palavra. Há clareza.
Não sei se é a direção certa para a marca a longo prazo. Mas foi, pelo menos nesta noite, muito mais interessante do que mais um desfile num palazzo.
Não foi o desfile mais íntimo que a Gucci alguma vez fez, muito longe disso. Mas foi provavelmente o mais honesto sobre o que a marca é e o que quer ser. E na moda de hoje, essa honestidade, mesmo que espetacular, mesmo que calculada, pode ser a forma mais eficaz de luxo. Ou pelo menos a mais difícil de ignorar.
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