5 Jovens Founders Portugueses que Deves Seguir
Tradução com IA, contact centers enterprise, fisioterapia digital, deteção de fraude bancária, cacifos inteligentes. Cinco áreas completamente diferentes, cinco histórias portuguesas, e uma coisa em comum: equipas que construíram negócios a competir globalmente a partir de Portugal.
Há uma pergunta que se repete sempre que se fala do ecossistema de startups português: onde estão os founders que conseguiram mesmo escalar para fora do país? A resposta, normalmente, é que estão à vista, só que dispersos por setores tão diferentes que raramente aparecem juntos na mesma conversa.
Reunimos aqui cinco. Não são os únicos, e a lista não pretende ser exaustiva, é antes um ponto de entrada para quem quer perceber o que está realmente a ser construído a partir de Portugal, e o que cada um destes percursos ensina sobre como competir a sério lá fora.
Vasco Pedro
UnbabelA história da Unbabel começa de uma forma que poucos esperariam: numa viagem de surf a Arrifana, em 2013, onde Vasco Pedro e mais quatro co-fundadores decidiram que iam resolver a barreira da língua nas empresas. Vasco tinha acabado de regressar de uma década nos Estados Unidos, mestrado e doutoramento em Tecnologias de Linguagem na Carnegie Mellon, passagens pela Google e pela Siemens, e juntou-se aos restantes co-fundadores no último semestre do seu PhD, a escrever a tese ao mesmo tempo que tinha a terceira filha.
O que torna o percurso desta equipa interessante não é apenas a tecnologia, é como transformaram uma área de investigação académica, processamento de linguagem natural, num produto B2B com clientes globais como a Pinterest, a Skyscanner e a Under Armour. A Unbabel combina tradução automática com edição humana, um modelo que resolve o problema mais difícil da tradução por IA: a qualidade consistente em escala. A empresa chegou a levantar 91 milhões de dólares em financiamento e foi incubada pela Y Combinator.
Em agosto de 2025, a Unbabel foi adquirida pela TransPerfect, gigante americana de serviços de tradução e localização, um desfecho que confirma o valor que a tecnologia da empresa tinha construído ao longo de mais de uma década.

Tiago Paiva
TalkdeskTiago Paiva e Cristina Fonseca fundaram a Talkdesk em 2011, depois de terem sido colegas no Instituto Superior Técnico. A ideia nasceu de forma quase acidental: construíram o primeiro protótipo em apenas dez dias para ganhar um hackathon patrocinado pela Twilio, e foi esse prémio, e o convite que se seguiu para apresentar o projeto em incubadoras de São Francisco, entre elas a 500 Startups, que lhes deu o capital inicial e a validação para arrancar a sério. A ideia era simples de explicar e difícil de executar bem: criar um centro de atendimento ao cliente na cloud, fácil de configurar, sem a complexidade dos sistemas legacy que dominavam o setor.
O que separa a Talkdesk de muitas startups portuguesas com boas ideias é a disciplina comercial com que a dupla a escalou nos Estados Unidos. A empresa mudou-se para Silicon Valley, cresceu de uma dezena de funcionários para mais de duas mil pessoas, e tornou-se cliente de nomes como a IBM, a Acxiom e a Fujitsu. Cristina Fonseca liderou o crescimento da empresa em Portugal até 2016, altura em que saiu para se dedicar a outros projetos, mantendo-se acionista. Tiago Paiva continuou como CEO, e em 2018 a Talkdesk atingiu o estatuto de unicórnio, avaliada em mais de mil milhões de dólares, e mais tarde a avaliação chegaria aos dez mil milhões, com uma ronda Série D de 230 milhões de dólares.
É um dos exemplos mais consistentes de execução SaaS enterprise saída de Portugal: não foi crescimento por sorte, foi crescimento por repetição metódica de vendas, produto e expansão internacional.

Virgílio Bento
Sword HealthA origem da Sword Health não é uma ideia de mercado abstrata, é pessoal. Virgílio Bento, nascido na Guarda, viveu de perto a dificuldade da própria família a lidar com a recuperação do irmão depois de um acidente grave na infância. Essa experiência ficou com ele e, em 2015, juntamente com Márcio Colunas, fundou a empresa com o objetivo declarado de libertar dois mil milhões de pessoas da dor física crónica.
A Sword Health combina sensores de movimento wearable com inteligência artificial para entregar fisioterapia digital, uma área onde a regulação é pesada, a confiança clínica é difícil de construir, e escalar rápido sem comprometer a qualidade do tratamento é um desafio que afasta a maioria das startups de saúde. Os dois co-fundadores fizeram-no de forma consistente: arrancaram com uma ronda Série A de 7,8 milhões de dólares e, poucos anos depois, já tinham levantado 320 milhões, com uma avaliação de 1,8 mil milhões. Hoje a empresa vale três mil milhões de dólares, opera em mais de 80 países e emprega cerca de 1.500 pessoas.
É a referência mais clara em Portugal de como escalar um produto de saúde fortemente regulado sem perder a velocidade que define uma startup, algo que muitas healthtechs europeias não conseguem fazer ao mesmo tempo.

"As pessoas não acreditam que é possível nascer em Portugal, ficar aqui, e ter sucesso global. A limitação está na nossa cabeça."
Virgílio Bento, fundador da Sword HealthNuno Sebastião
FeedzaiAntes de fundar a Feedzai, Nuno Sebastião trabalhou como engenheiro na Agência Espacial Europeia. Em 2010, deixou esse percurso para ir à procura de financiamento para uma ideia diferente, e em 2011 fundou a empresa em Coimbra, junto com Paulo Marques e Pedro Bizarro, com um objetivo concreto: usar machine learning para combater a fraude financeira.
A Feedzai construiu-se como uma referência de deep tech aplicada a infraestrutura crítica, o tipo de tecnologia que os grandes bancos e processadores de pagamentos do mundo não podem dar-se ao luxo de errar. A plataforma analisa transações em tempo real para detetar fraude e risco, e tornou-se suficientemente confiável para ser selecionada pelo Banco Central Europeu, em parceria com a Capgemini Alemanha, para fornecer a solução de gestão de fraude e risco do Euro Digital.
Sob a liderança dos três co-fundadores, a empresa levantou mais de 280 milhões de dólares em financiamento, atingiu o estatuto de unicórnio, e cresceu para perto de 800 colaboradores globalmente. É um caso sólido de como a IA aplicada a um problema invisível mas crítico, a confiança no sistema financeiro, pode construir uma empresa de escala global a partir de uma cidade universitária portuguesa.

João Lopes
Bloq.itA Bloq.it nasceu de uma ideia bem mais modesta do que aquilo em que se tornou: cacifos inteligentes para guardar pertences na praia. João Lopes conheceu o esloveno Miha Jagodic num curso de empreendedorismo em Silicon Valley, e foi aí que surgiu a ideia que, com Ricardo Carvalho, deu origem à empresa em 2019, ainda durante o curso universitário de João.
O que tornou a Bloq.it diferente da maioria das startups portuguesas foi a decisão de não vender apenas o hardware dos cacifos, mas construir um sistema operativo de software próprio para os controlar, diagnóstico em tempo real, hiper-customização, manutenção remota. É essa camada de software que transformou um produto físico relativamente simples numa plataforma com clientes como a DHL e a Vinted, da qual a Bloq.it é parceira principal fora de Portugal.
A empresa cresceu rapidamente durante a pandemia, impulsionada pela explosão de encomendas online, e previa ter mais de dez mil unidades ativas em diferentes países até 2024. É um exemplo raro de como combinar hardware com software bem construído cria um tipo de escala que o software puro, por si só, não consegue replicar.

O que estes cinco percursos têm em comum
Nenhuma destas equipas construiu a sua empresa a pensar primeiro no mercado português. Todos perceberam, mais ou menos cedo, que o problema que estavam a resolver só fazia sentido em escala global, e foi essa decisão, tomada normalmente nos primeiros anos, que separou estas empresas de centenas de outras boas ideias portuguesas que nunca saíram de um nicho local.
Há também um padrão menos óbvio: nenhum destes negócios é fácil de explicar numa frase de elevator pitch sem perder profundidade. Tradução com IA e edição humana, contact centers enterprise com inteligência artificial, fisioterapia digital clinicamente validada, deteção de fraude para bancos centrais, sistemas operativos para cacifos inteligentes, são todas ideias que exigem paciência para construir credibilidade técnica antes de conseguirem escalar comercialmente.
Se há uma lição transversal a tirar destes cinco percursos, é esta: a vantagem competitiva portuguesa não está em copiar modelos americanos mais rápido, está em escolher problemas difíceis, com barreiras técnicas ou regulatórias reais, e construir com a paciência que esses problemas exigem.
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