O Mercado de Roupas de Luxo em Segunda Mão Está a Crescer em Portugal?

|Juciara Ribeiro
O Mercado de Roupas de Luxo em Segunda Mão Está a Crescer em Portugal?
Moda · Sustentabilidade · Portugal

Comprar roupa de luxo em segunda mão deixou de ser apenas uma forma de poupar. Em Portugal, cada vez mais consumidores procuram peças premium usadas, e os motivos vão muito além do preço.

Durante muito tempo, comprar uma mala usada ou um casaco de segunda mão era visto em Portugal com alguma reserva. Coisa de quem não podia comprar novo, ou de quem não ligava à aparência. Esse estigma foi-se esbatendo ao longo da última década, mas foi nos últimos três ou quatro anos que desapareceu mesmo.

Hoje, plataformas especializadas em luxo em segunda mão crescem a ritmos que surpreendem o próprio setor. Consumidores mais jovens compram Chanel e Hermès antes de ponderarem as versões novas. E cada vez mais pessoas percebem que certas peças de luxo não perdem valor, chegam a valorizá-lo. Isto não é uma moda passageira. É uma mudança estrutural na forma como se compra e se pensa a moda em Portugal.


Porque está este mercado a crescer?

Não há uma razão única. O crescimento do mercado de roupa de luxo em segunda mão em Portugal resulta de vários fatores que se reforçam mutuamente, e que, juntos, criaram condições que há dez anos simplesmente não existiam.

Fator 01

Inflação e poder de compra

O preço das peças de luxo novas subiu de forma expressiva nos últimos anos. A Louis Vuitton, a Chanel e a Hermès aumentaram os preços em ciclos cada vez mais frequentes, em alguns casos, acima de 30% num único ano. Isso empurrou consumidores que antes compravam novo para o mercado de revenda, onde as mesmas peças surgem com descontos reais.

Fator 02

Sustentabilidade

A consciência ambiental mudou a forma como parte dos consumidores portugueses pensa o consumo. Comprar uma peça usada em vez de nova não é só uma questão de preço, é uma escolha que faz sentido dentro de uma lógica de consumo mais responsável. A moda de luxo, com a sua qualidade de construção e durabilidade, encaixa bem nesse argumento.

Fator 03

Economia circular

A ideia de que uma peça de qualidade não precisa de ter um único dono ganhou terreno. Comprar, usar durante anos e revender a seguir passou a ser um modelo válido, e até financeiramente interessante quando as peças escolhidas se valorizam. Isto aproxima a lógica da segunda mão de luxo à de um pequeno investimento, algo que apela a um perfil de consumidor diferente do tradicional.

Fator 04

Influência das redes sociais

O TikTok e o Instagram normalizaram a compra em segunda mão de uma forma que nenhuma campanha de marketing teria conseguido tão rapidamente. Vídeos de "thrift hauls", unboxings de compras em plataformas de revenda e conteúdo sobre como autenticar peças de luxo chegam a audiências jovens que antes nem equacionavam este mercado.

Fator 05

Maior confiança nas plataformas de revenda

Durante muito tempo, o receio de comprar falsos travou o crescimento deste mercado. A profissionalização das plataformas especializadas, com sistemas de autenticação, garantias e políticas de devolução claras, reduziu esse risco de forma significativa. Vestiaire Collective, Rebelle e The RealReal são exemplos de plataformas que investiram pesado nesta área e que ganharam a confiança de consumidores que antes hesitavam.

"Quando o preço de uma mala nova sobe 30% num ano, o mercado de revenda não é a segunda opção, passa a ser a opção inteligente."

O que os portugueses procuram?

Nem todas as marcas de luxo se comportam da mesma forma no mercado de revenda. Algumas peças retêm quase todo o valor original. Outras depreciam rapidamente. Perceber esta diferença é fundamental antes de comprar, tanto para quem quer poupar como para quem pensa na possibilidade de revender mais tarde.

Louis Vuitton
Alta retenção de valor

É a marca mais procurada no mercado de segunda mão em Portugal, e percebe-se porquê. A monograma da LV é instantaneamente reconhecível, a qualidade de construção é consistente entre décadas e há modelos icónicos, como o Neverfull ou o Speedy, que mantêm valores de revenda muito próximos do preço de compra original. Peças em bom estado chegam a valorizar face ao preço pago, especialmente em edições limitadas.

Chanel
Valorização real ao longo do tempo

A Chanel é o caso mais impressionante de valorização no mercado de luxo em segunda mão. A Classic Flap e a 2.55 custavam menos de dois mil euros no início dos anos 2000. Hoje, as versões novas ultrapassam os dez mil euros, e as versões usadas em bom estado acompanham essa valorização. Comprar Chanel em segunda mão é, em muitos casos, comprar a um preço mais baixo algo que continuará a subir.

Gucci
Procura elevada, valorização moderada

A Gucci tem uma procura forte no mercado de revenda português, especialmente em malas e acessórios das coleções mais reconhecíveis. A valorização não é tão consistente como a da Chanel ou da LV, depende muito do modelo e do momento, mas há peças que mantêm bem o valor, em particular as que têm designs menos ligados a tendências passageiras e mais ao DNA da marca.

Hermès
O pico da valorização em segunda mão

A Hermès é uma categoria à parte. A Birkin e a Kelly são peças que, em segunda mão, chegam a valer mais do que novas, porque nas lojas existem listas de espera longas e o acesso não é simplesmente monetário. Comprar uma Birkin usada num estado impecável pode ser, literalmente, a única forma de ter acesso a esse modelo. A valorização histórica é a mais sólida de qualquer artigo de moda de luxo no mercado global.

Vale a pena comprar luxo em segunda mão?

A resposta direta é: na maioria dos casos, sim. Mas depende do que procuras e de quão bem escolhes.

A poupança imediata é o argumento mais óbvio. Uma mala de luxo em segunda mão em bom estado pode custar entre 30% e 60% menos do que a versão nova equivalente e, em marcas como a Louis Vuitton ou a Chanel, essa diferença de preço não se traduz numa diferença de qualidade visível. A construção destas peças é feita para durar décadas, não temporadas.

Há também o argumento das peças descontinuadas. Modelos que a marca deixou de produzir, edições limitadas, colorways que não estão disponíveis nas lojas, o mercado de segunda mão é muitas vezes o único sítio onde se encontram. Para quem quer algo específico em vez de algo apenas da marca, a segunda mão abre possibilidades que a loja nova não tem.

E depois há a questão da revenda futura. Comprar uma peça de qualidade com consciência de que podes vendê-la mais tarde, potencialmente por um valor próximo ou superior ao que pagaste, muda completamente a equação financeira da compra. Não é investimento no sentido estrito, mas é uma forma de consumir que não tem comparação com a maioria das compras de moda.

Razões para comprar
  • Poupança de 30% a 60% face ao preço novo
  • Qualidade idêntica em peças bem conservadas
  • Acesso a modelos descontinuados ou esgotados
  • Possibilidade real de revender sem grande perda
  • Escolha mais sustentável e consciente
O que ponderar primeiro
  • O estado da peça determina tudo, exige atenção
  • Nem todas as marcas retêm valor igual
  • A autenticação é indispensável antes de comprar
  • Plataformas não especializadas têm mais risco
  • Alguns modelos depreciaram, há que saber quais

Os desafios que não deves ignorar

O mercado de luxo em segunda mão tem vantagens reais, mas também tem riscos que é importante conhecer antes de fazer a primeira compra. Ignorá-los pode sair caro, literalmente.

01

O risco das falsificações

O mercado de réplicas de luxo é sofisticado e está em constante evolução. Há falsificações que enganam olhares pouco treinados com alguma facilidade, especialmente em categorias como malas e relógios. Quanto mais procurada é a marca, maior é o volume de falsos em circulação. Comprar de particulares sem verificação independente é o cenário de maior risco, e o que ainda acontece com demasiada frequência.

02

A autenticação é inegociável

Antes de comprar qualquer peça de luxo em segunda mão, a autenticação por um especialista ou por uma plataforma certificada é o passo que não pode ser saltado. As plataformas mais credenciadas fazem esse processo internamente. Quando a compra é feita fora dessas plataformas, vale a pena pagar por uma autenticação independente, o custo é sempre muito menor do que o de descobrir que a peça é falsa depois de comprada.

03

O estado da peça pode surpreender

As descrições de estado das peças variam muito entre vendedores. "Bom estado" para um particular pode significar coisas muito diferentes do que para uma plataforma especializada com critérios padronizados. Antes de comprar, pede sempre fotografias detalhadas de todos os ângulos, ferragens, costuras, interior, etiquetas. Em peças de valor mais alto, uma inspeção presencial, quando possível, elimina quase todas as surpresas.

"O mercado de segunda mão de luxo não é arriscado por natureza. É arriscado quando se compra sem verificar. A diferença entre os dois está em quão bem te prepares antes da compra."

O futuro deste mercado em Portugal

O mercado global de luxo em segunda mão vale já mais de 40 mil milhões de euros e os analistas projetam que duplique até ao final da década. Portugal acompanha essa tendência com algum atraso, mas os indicadores são claros: o volume de pesquisas por plataformas de revenda cresceu de forma consistente nos últimos três anos, e o perfil de quem compra está a mudar.

Os consumidores mais jovens, a Geração Z e os Millennials mais novos, são os que mais alimentam este crescimento. Para muitos deles, comprar em segunda mão não é um compromisso face ao original: é a escolha preferida, por razões que misturam sustentabilidade, preço e a ideia de aceder a peças com história própria.

A expansão das plataformas especializadas para o mercado ibérico, com suporte em português, preços em euros e sistemas de envio mais rápidos, vai continuar a reduzir as barreiras que ainda existem. O mercado português ainda é pequeno quando comparado com França, Reino Unido ou Alemanha. Mas as condições para crescer de forma consistente estão reunidas.

+40k€M Valor global do mercado de luxo em segunda mão
×2 Crescimento esperado até ao final da década
Gen Z O maior motor de crescimento neste segmento

O que fica deste mercado

O mercado português ainda é pequeno quando comparado com outros países europeus, mas apresenta sinais claros de crescimento. Para consumidores que procuram qualidade, exclusividade e um consumo mais consciente, o luxo em segunda mão deixou de ser uma tendência passageira e começa a afirmar-se como uma alternativa cada vez mais relevante.

O que mudou não foi apenas o acesso ou a oferta disponível. Mudou a perceção. Comprar uma mala Chanel usada já não é visto como alternativa de segunda linha, é visto como uma escolha informada. E quando a perceção muda desta forma, o mercado muda com ela.

Se estás a pensar em entrar neste mercado pela primeira vez, a sugestão é simples: começa por uma peça de uma marca com boa retenção de valor, compra numa plataforma com autenticação incluída, e verifica o estado com atenção. A primeira compra bem feita é quase sempre o início de uma relação longa com este tipo de consumo.

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