O Que Está a Acontecer ao Gigante do Luxo?
A empresa que controla a Louis Vuitton, a Dior, a Tiffany e a Sephora continua a ser o maior grupo de luxo do mundo, mas os resultados de 2025 deixam claro que algo mudou no mercado global.
Durante anos, a LVMH funcionou quase como prova de que o luxo era imune às crises. Enquanto outros sectores sofriam com a inflação, a pandemia ou a desaceleração económica, os resultados de Bernard Arnault e da sua constelação de marcas continuavam a surpreender pela positiva. Em 2021, 2022 e 2023, os lucros bateram recordes consecutivos.
2025 foi diferente. O grupo fechou o ano com 80,8 mil milhões de euros em receitas e 11,2 mil milhões em lucro líquido, números que, fora do contexto, continuam a ser impressionantes. Dentro do contexto, representam uma queda real face ao ano anterior, alimentada por uma combinação de fatores que a gestão do grupo não conseguiu travar: abrandamento na China, menor apetite global por produtos de luxo, e dificuldades específicas na divisão de bebidas premium.
O que estes números significam, o que os causou, e o que se espera para 2026, é isso que este artigo analisa.
Quanto Lucrou a LVMH em 2025?
Os resultados completos de 2025 confirmaram a tendência que os relatórios intercalares já antecipavam: crescimento parado, lucros em recuo. A tabela abaixo compara os números de 2025 com os de 2024 para perceber a dimensão da mudança.
A queda no lucro líquido, de 13 para 11,2 mil milhões, uma descida de quase 14%, é o número que mais chama a atenção. As receitas caíram menos de 5%, o que indica que a pressão vem principalmente das margens: os custos não desceram na mesma proporção que as vendas, e a rentabilidade sofreu com isso.
Ainda assim, convém ter sentido de escala. Um lucro líquido de 11,2 mil milhões de euros coloca a LVMH entre as empresas mais lucrativas da Europa. O recuo é real, mas é o recuo de um patamar excecionalmente alto.
A LVMH tem sede em Paris e é controlada pela família Arnault, que detém cerca de 48% do capital do grupo.
Porque Caíram os Lucros da LVMH?
Não há uma causa única. O que aconteceu em 2025 foi a confluência de várias pressões simultâneas, algumas antecipadas, outras que se revelaram mais persistentes do que o grupo esperava.
Menor procura na China
A China foi, durante anos, o motor de crescimento do luxo global. O regresso do consumidor chinês após a pandemia gerou resultados excepcionais em 2022 e 2023, com a LVMH e outros grupos a reportar crescimento de dois dígitos no mercado asiático. Em 2025, esse impulso desapareceu.
O abrandamento da economia chinesa, com deflação, crise imobiliária e menor confiança do consumidor, travou a procura por artigos de luxo de forma mais intensa do que a maioria dos analistas antecipava. O turismo de compras, em que consumidores chineses viajavam para Paris ou Milão para comprar produtos a preços mais baixos do que na China, também diminuiu. Para uma empresa que gerava entre 25 e 30% das suas receitas na região Ásia-Pacífico, o impacto foi direto e significativo.
Queda nas vendas de artigos de luxo
O abrandamento não se limitou à China. Os consumidores de luxo em todo o mundo, incluindo nos EUA e na Europa, tornaram-se mais seletivos em 2025. As subidas de preços sucessivas que as marcas implementaram entre 2021 e 2023, aproveitando a procura excecional do período pós-pandemia, começaram a chegar a um limite. Uma mala da Louis Vuitton que custava 900 euros em 2019 passou a custar mais de 1.500 euros em 2024. Há um ponto em que até o consumidor de luxo começa a hesitar.
A divisão de Moda e Maroquinaria, que inclui a Louis Vuitton e a Christian Dior e que é responsável por mais de metade das receitas do grupo, registou uma desaceleração que não se via desde a crise financeira de 2008.
Problemas na divisão de bebidas premium
A divisão de Vinhos e Destilados, que inclui a Moët & Chandon, a Dom Pérignon e a Hennessy, foi a que mais sofreu em 2025. O mercado de champanhe contraiu após os anos de pós-pandemia, em que as vendas tinham sido artificialmente elevadas. A Hennessy, líder mundial em cognac, enfrentou problemas acrescidos com as tarifas comerciais entre os EUA e a China, dois dos seus maiores mercados, que encareceram as exportações em ambas as direcções.
O resultado foi uma queda de receitas na divisão que ficou claramente abaixo da performance do resto do grupo.
O impacto da economia global
Por detrás de todas estas causas específicas, há um contexto mais amplo: a economia global em 2025 foi marcada por incerteza geopolítica, o regresso de Donald Trump à Casa Branca e as tensões comerciais que se seguiram, incluindo tarifas sobre produtos europeus, e por taxas de juro ainda elevadas em muitas economias. O efeito de riqueza que impulsionava o consumo de luxo diminuiu quando os mercados financeiros se tornaram menos eufóricos.
"O luxo não é imune às leis da economia. É apenas mais lento a sentir os seus efeitos, e mais lento a recuperar quando eles passam."
Quais São as Marcas da LVMH?
A LVMH não é uma empresa, é um ecossistema. O grupo controla 75 marcas distribuídas por seis divisões distintas. Algumas são nomes que toda a gente conhece. Outras são referências de nicho que definem categorias inteiras do luxo. Aqui estão as principais.
O modelo de portefólio diversificado da LVMH tem uma vantagem estrutural: quando uma divisão desacelera, como aconteceu com Vinhos e Destilados em 2025, outras podem compensar. A Sephora, por exemplo, continuou a crescer mesmo num ano difícil para o grupo. Mas quando várias divisões abrandam ao mesmo tempo, como aconteceu em 2025, a diversificação já não protege da mesma forma.
LVMH vs Inditex: Quem Ganha Mais Dinheiro?
É uma comparação que surge frequentemente, dois dos maiores grupos de moda do mundo, com modelos de negócio completamente diferentes. A Inditex (dona da Zara, Massimo Dutti, Pull&Bear e outras) e a LVMH raramente competem pelo mesmo cliente, mas ambas dominam o mercado global de vestuário e acessórios. Os números de 2025 mostram bem a diferença de escala.
A LVMH gera quase o dobro das receitas da Inditex e praticamente o dobro do lucro, mas há um dado contra-intuitivo: a margem líquida da Inditex é ligeiramente superior. Isso explica-se pelo modelo de negócio: a Inditex vende volume com eficiência operacional extrema; a LVMH vende preço elevado com investimento pesado em imagem, publicidade e experiências de marca que comprimem a margem.
Em termos de capitalização bolsista, o valor que os mercados atribuem às duas empresas, a LVMH mantém-se acima apesar da desaceleração de 2025, reflexo da confiança dos investidores no poder das suas marcas a longo prazo.
Quem é Bernard Arnault?
Bernard Arnault nasceu em 1949 em Roubaix, no norte de França. Estudou engenharia na École Polytechnique e começou a carreira na empresa de construção do pai. A viragem para o luxo aconteceu em 1984, quando adquiriu o grupo Boussac, em falência, que incluía, entre outros activos, a Christian Dior. Tinha 35 anos.
A estratégia de Arnault revelou-se simples na formulação e complexa na execução: comprar marcas com herança e potencial, investir na qualidade criativa e na distribuição global, e nunca vender. Em 1987, a fusão com a LVMH criou o veículo que usou para as décadas seguintes de aquisições, Givenchy, TAG Heuer, Sephora, Dom Pérignon, Bulgari e, em 2021, Tiffany & Co. pela maior aquisição da história do sector.
Durante boa parte de 2023 e 2024, Bernard Arnault foi a pessoa mais rica do mundo, alternando essa posição com Elon Musk. A desaceleração da LVMH em 2025 afetou a sua fortuna pessoal, estimada entre 160 e 180 mil milhões de euros dependendo da cotação da ação, mas não a sua posição como figura dominante da indústria do luxo global.
A sucessão é um tema recorrente nas análises ao grupo. Cinco dos filhos de Arnault têm posições executivas na LVMH ou nas suas marcas. Antoine Arnault lidera a Berluti e a comunicação do grupo. Delphine Arnault preside à Christian Dior. Alexandre Arnault está na Tiffany. Frédéric e Jean são responsáveis por Tag Heuer e Louis Vuitton respectivamente. Uma transição familiar está desenhada, apenas a data é incerta.
Arnault compra um grupo em falência que inclui a Christian Dior. Reestrutura, vende os activos não estratégicos e fica com a jóia da coroa.
A fusão entre Louis Vuitton, Moët Hennessy e a Christian Dior cria a LVMH. Arnault torna-se accionista maioritário dois anos depois.
O grupo expande-se sistematicamente. Cada aquisição segue a mesma lógica: marca com herança, potencial de crescimento global, e encaixe no portefólio existente.
A maior aquisição da história do sector do luxo. A Tiffany entra no grupo e começa uma transformação profunda sob a liderança de Alexandre Arnault.
Perspectivas da LVMH para 2026
A segunda metade de 2025 trouxe alguns sinais de estabilização. As vendas na China, embora longe dos picos de 2023, deixaram de cair ao mesmo ritmo do início do ano. O consumidor americano manteve-se relativamente resistente. E a Sephora continuou a crescer de forma consistente, demonstrando que nem todas as divisões do grupo estavam sob pressão.
Para 2026, a gestão da LVMH aponta para uma recuperação gradual, condicionada por três factores principais. O primeiro é a trajectória da economia chinesa: se a confiança do consumidor melhorar e o governo continuar a estimular o consumo interno, o mercado asiático pode voltar a impulsionar os resultados do grupo.
O segundo factor é a resolução das tensões comerciais com os EUA. As tarifas impostas pelo governo Trump sobre produtos europeus, e as contramedidas europeias, criaram incerteza que afectou directamente marcas como a Hennessy, cujas exportações para os EUA ficaram mais caras. Uma normalização das relações comerciais seria imediatamente positiva para a divisão de bebidas premium.
O terceiro é interno: a capacidade de criar novidades criativas que rejuvenescam a procura. A Louis Vuitton e a Christian Dior têm calendários de colecções que geram cobertura mediática e desejo de compra, mas isso exige que os directores criativos produzam trabalho que justifique os preços. Nicolas Ghesquière na Louis Vuitton e a Maria Grazia Chiuri na Dior são testados a cada temporada.
Os resultados da LVMH em 2025 são o retrato de uma empresa que continua a ser dominante no seu sector, mas que sentiu pela primeira vez em vários anos a pressão de um mercado que mudou. O lucro de 11,2 mil milhões é, em termos absolutos, um número extraordinário. Em termos relativos, representa uma queda de quase 14% que obriga o grupo a reajustar expectativas e estratégia.
A LVMH já passou por desacelerações antes, em 2009, em 2020, e em ambos os casos recuperou. A questão para 2026 não é se vai recuperar, mas a que velocidade. A China, as tarifas comerciais e a capacidade criativa das marcas-chave vão determinar isso. Bernard Arnault, aos 76 anos, já demonstrou que sabe navegar ciclos difíceis. A questão é se a próxima geração da família, que está já nos lugares executivos, vai ter a mesma capacidade quando chegar a sua vez.
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